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13/07/2020 19:30

#ASPAS - Nova programadora da Sala Walter, Daiane Silva conta trajetória e planos para a sala de cinema

foto:Divulgação

Recém chegada à Fundação Cultural do Estado da Bahia, Daiane Silva é a nova programadora da Sala Walter da Silveira, gerida pela Diretoria Audiovisual da Funceb. Ela é mestra em Educação, graduada em Pedagogia e atualmente integra a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Daiane trabalhou na Rebento Filmes, primeira produtora formada exclusivamente por mulheres negras em Salvador, e na coordenação pedagógica do projeto Lanterninha - Cinema e Educação em Movimento, projeto de formação de cineclubes e formação audiovisual em escolas da rede de ensino público da Bahia. Conheça um pouco da trajetória de Daiane e alguns de seus planos em relação à programação da Sala Walter da Silveira.

 

FUNCEB - Além de trabalhar com cinema, você é mestra em Educação e graduada em Pedagogia. Como sua formação poderá influenciar enquanto programadora da Sala Walter da Silveira?


Daiane Silva - Eu iniciei minha história no cinema e no audiovisual em 1998, na Oficina de Vídeo do Programa de Aprendizes do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. É a partir dessa experiência que eu começo a entender a relação que o cinema tem com processos formativos. No mestrado, sob a orientação da Dra. Maria Inez Carvalho (Faced/Ufba), escrevo um texto ensaístico, a partir dos referenciais teóricos do campo do currículo e do pensamento construído por Inez em sua tese, para pensar na relação do cinema com o cotidiano da escola.  Então, é a partir dessas experiências e de sua atualização e ressignificação que vou desenhar, junto à equipe da Dimas e outros parceiros externos à instituição, a programação da Sala Walter da Silveira pra tentar dar conta não apenas da exibição e difusão, mas da possibilidade de ofertar a nossa cidade e ao nosso estado oportunidades de encontros, diálogos e debates sobre o que estamos vendo e como estamos fazendo cinema.


Ainda falando de meu itinerário formativo, tive acesso às ações e pensamentos do Movimento Cineclubista da Bahia o que fez com que eu pensasse, na relação que a Sala Walter da Silveira estabelece e estabelecerá com o público. Os cineclubistas Jorge Conceição (in memorian) e Luis Orlando (in memorian) e a socióloga Conceição Miranda são as minhas grandes referências e inspiração nesse sentido. Vale salientar que a Sala Walter da Silveira, por ser a única sala pública de cinema a exibir filmes gratuitamente, precisa dialogar com o público que quer atingir.

 

"... é a partir dessas experiências e de sua atualização e ressignificação que vou desenhar, junto à equipe da Dimas e outros parceiros externos à instituição, a programação da Sala Walter da Silveira pra tentar dar conta não apenas da exibição e difusão, mas da possibilidade de ofertar a nossa cidade e ao nosso estado oportunidades de encontros, diálogos e debates sobre o que estamos vendo e como estamos fazendo cinema."

 

foto:Divulgação

Oficina de vídeo em celular realizada por Daiane durante o Festival Literário Nacional (FLIN)


FUNCEB - Quais serão os seus principais critérios no momento de realizar a curadoria de filmes?


DS - Primeiramente farei uma imersão para compreender o conceito de curadoria e os métodos curatoriais, a partir, por exemplo, da experiência da Mostra Cineclube Tela Preta, Mostra Cine Dendê, Cineclube Afoxé, Mostra Itinerante Mahommed Bamba, Cine Quebrada, O Cineclube Mário Gusmão... É importante partir do que os pesquisadores, realizadores, estão discutindo, pois a partir daí terei mais consistência para pensar nesses critérios. Entender a demanda da sala, a demanda da nossa cidade, quem são esses novos realizadores e quais são as narrativas “insurgentes”. Além disso, é hora de mergulhar e conhecer as filmografias, rever alguns filmes, principalmente brasileiros, focando nos cinemas baianos e nordestinos nesse momento de definição de um “recorte” para a nossa programação. Toda a programação será pensada também em diálogo com as ações da Cinemateca da Bahia, gerida pela Dimas, que guarda raridades em diferentes formatos. Somos a única sala na cidade de Salvador com possibilidades de exibir em qualquer bitola de película.

 

"Somos a única sala na cidade de Salvador com possibilidades de exibir em qualquer bitola de película."


FUNCEB - Levando em consideração a sua trajetória e experiência artística, como você percebe o cenário baiano atualmente no que tange à produção audiovisual com protagonismo negro e de gênero?

DS - Eu percebo que no cenário baiano avançamos bastante, não apenas tendo atores e atrizes negros e negras em cena, interpretando personagens, que são representados nas telas com mais dignidade e mais humanidade.  As mulheres negras da Bahia estão em movimento, articuladas, pesquisando, produzindo, escrevendo, filmando, atualizando nossas histórias que durante muito tempo foram muito mal contadas. Queremos mais dinheiro, mais editais, mais parcerias, mais mostras, festivais, encontros, escutas que possibilitem investimentos em produção, formação para que a gente continue, siga realizando pesquisas, abrindo produtoras e para que as nossas formas de expressão dessa linguagem sejam cada vez mais aprimoradas, legitimadas e difundidas no mundo inteiro. As mulheres negras da Bahia continuarão contando suas histórias através do cinema e do audiovisual.

 

foto:Divulgação

Gravação do curta "Jo Soy Maria" em San Antonio de Los Baños, Cuba


FUNCEB - Você integra a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), além de ter feito parte do projeto "Lanterninha", que fazia formação de platéia para o cinema brasileiro. Como essas experiências contribuíram na sua trajetória no cinema?


DS - Integrei-me à APAN durante o trabalho realizado na Rebento Filmes entre os anos de 2017 e 2019. Abro um parêntese para dizer que trabalhar com Larissa Fulana de Tal, Clarissa Brandão e Thamires Vieira foi muito rico e importante na minha trajetória no cinema, pois nosso encontro agregou ao meu percurso, conhecimento e experiência teórica e de campo, principalmente sobre os Cinemas Negros Contemporâneos da Bahia e do Brasil. Enxerguei nossas potências e nossos desafios e com elas, cheguei na APAN. Acessar a APAN é acessar a existência de realizadores negros e negras, suas potências, os desafios, as especificidades de suas narrativas, métodos e modos de fazer, a produção, os processos de diálogos, construções, rupturas e fissuras dentro e fora da estrutura do cinema hegemônico. O encontro com a APAN faz toda a diferença em minha trajetória.


Já a experiência no projeto Lanterninha - Cinema e Educação e Movimento me colocou em pesquisa, invenção metodológica e em um diálogo complexo, dinâmico e criativo com a escola. A escola pública me ensinou e me ensina muito sobre o fazer e o ver cinema. O encontro do cinema com o cotidiano da escola provoca um deslocamento, uma ruptura e fusão com os tempos, um descontrole... O projeto nasceu com o objetivo de possibilitar que alunos,  professores e toda a comunidade escolar vivenciassem uma experiência com o cinema. Um coletivo de educadores, cineastas, produtores, técnicos (Eu, Marcelo Matos, Tenille Bezerra, Fabio Costa, Marcelo Benedicts, Eliana Mendes, Andrea Nader) iniciou sua itinerância em escolas públicas estaduais e municipais, localizadas em Salvador e nas cidades de Cachoeira e Santo Amaro (Bahia), exibindo no horário das aulas, longas e curtas metragens brasileiros.  Com o intuito de formar público e tornar a experiência cinematográfica acessível a quem pouco ou nunca vai ao cinema, através das sessões de cinema na escola, o projeto buscava, dentre outras coisas, que cada escola fizesse sua própria interconexão do conteúdo-forma das obras que foram projetadas, relacionando-as com os conteúdos ensinados em sala de aula. Além disso, o Lanterninha era um projeto de criação de cineclubes nessas escolas.


Esse trabalho de itinerância e formação se assemelham a proposta que o Circuito Luiz Orlando de Exibição realiza hoje e, certamente, rememorar o e revistar a nossa metodologia durante esse processo contribuirá e muito na busca por parcerias, na curadoria dos filmes e no diálogo que a Sala Walter da Silveira voltará a estabelecer com as escolas públicas de Salvador.

 

 

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