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26/01/2018 16:10

#Pratadacasa - Um "príncipe" atrás das câmeras

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Ivanildo Silva: criatividade e disposição para contornar as limitações técnicas e continuar produzindo (Foto: Felipe Teles)

Aos 12 anos, Ivanildo Silva fazia sua estreia no cinema. Era um dos meninos do elenco de "Crianças de Mundo Novo", curta-metragem de Fernando Belens, sobre um trágico episódio real,  envolvendo o sacrifício, por uma seita religiosa, de oito jovens em Salvador , na década de 1970. Mas tímido, já no set de filmagens, seu interesse logo se voltaria para o universo que começara a descobrir atrás das câmeras.

Cinegrafista da Diretoria de Audiovisual, da Fundação Cultural da Bahia (DIMAS/FUNCEB), há quase dez anos, Ivan é também conhecido, no meio cinematográfico baiano, como "O Príncipe".  A distinção remonta aos seus ancestrais, notadamente, um tataravô de Ivan,  mestre em Ifá  (jogo de búzios),  que, em plena escravatura,  mantinha intacta sua realeza Orubá. "Quando o cineasta Pola Ribeiro viu uma foto desse meu antepassado num jornal  católico, "O mensageiro da fé",  em  posição de destaque,  e soube da história dele;  passou a me chamar assim e o apelido pegou", lembra Ivanildo, divertindo-se com a aura nobre. Para quem convive com ele,  a despeito da sua simplicidade e cortesia habituais, a blague tem lá sua razão de ser. 

Geração Super 8
Era vizinho, não só de Pola, mas de Belens, na Pedra da Sereia, no Rio Vermelho. Convivia ainda com os demais realizadores do então movimento superoitista  da época (a geração que começou fazendo filmes em câmeras caseiras no formato Super 8, nos anos 1970, e depois se tornaria o mais destacado grupo de cineastas baianos pós-Glauber Rocha e Roberto Pires).

De José Araripe Jr. a Edgard Navarro, passando por fotógrafos fundamentais como Vito Diniz e Hamilton Oliveira,  Ivan esteve, sempre, entre os mais criativos, irreverentes e generosos profissionais da cena cinematográfica local.  E foi aprendendo.

Na década de 1990, foi trabalhar como vigilante na Truq Cinema e Vídeo, uma das principais produtoras de audiovisual  do Estado. Com o seu histórico, não demorou a mudar de função. "O produtor Moisés Augusto, um dos sócios da Truq,  logo me chamou para trabalhar na parte técnica da empresa e, em pouco tempo, já era assistente de direção", lembra Ivan. Em seguida,  voltaria a trabalhar com Fernando Belens em "Heteros - A Comédia" , desta vez, no lugar de sua predileção, como assistente de câmera.

Em 1993, já estava envolvido com a nova leva de cineastas que surgia com o advento da captação analógica, o vídeo.  Fez parte da produção do primeiro curta-metragem de Sérgio Machado, "Troca de Cabeça". Seguiu a carreira fazendo muita publicidade, cobertura jornalística para a TV Aratu e Bandeirantes, além de participar de programas nacionais do canal por assinatura, GNT.

Sem formação tradicional, acumulando experiências e com seu talento de bom observador, Ivanildo é um dos profissionais do Laboratório de Rádio e Televisão da Universidade Salvador (Unifacs) há 13 anos. Presta suporte técnico e orientação a estudantes de vários cursos como Jornalismo, Publicidade e Design. "Os alunos vêm com as ideias e nós ajudamos a realizá-las com as noções de enquadramento, luz e áudio", explica.

Na Diretoria de Audiovisual, da FUNCEB, é peça-chave do Núcleo de Apoio à Produção. "É sempre estimulante trabalhar na DIMAS. Mesmo diante das eventuais limitações técnicas, sempre conseguimos contornar as dificuldades e atender as demandas que surgem. No final das contas,  isso desenvolve ainda mais a nossa criatividade", comenta Ivan, destacando as coberturas culturais, os conteúdos originais produzidos pela Diretoria, além de produtos audiovisuais já consolidados como o programa "Corte Seco".

A fala tranquila, o jeito prestativo e olhar atento a tudo, para continuar aprendendo e discretamente ensinar, podem até disfarçar sua realeza natural e sutil, mas todos sabem que um "Príncipe" também se faz nos gestos cotidianos.  Basta reconhecer a prata da casa.
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