GERALDO SARNO, 70 ANOS

POR ANDRÉ SETARO

O primeiro filme de Geraldo Sarno que vi foi “Viramundo” (1964), que faz parte do longa “Brasil Verdade”, a reunir mais dois curtas: “Escola de Samba Alegria de Viver”, de Hernandez (o primeiro nome me escapa agora) e “Memória do cangaço”, de Paulo Gil Soares, baiano como Sarno.

Fidélis Geraldo Sarno (em sua família, vários de seus parentes possuem o Fidélis antes de outro nome) completa, neste 2008, 70 anos. Radicado no sul do país, passa alguns anos desta década em Salvador, a enriquecer o curso de graduação em Cinema da FTC com a experiência de sua vida nas aulas ministradas. Há pouco, lançou “Cadernos do Sertão”, precioso repositório da cultura sertaneja da qual é um especialista. Deu a conhecer, também, um DVD sobre a imagem cinematográfica, no qual disseca numa análise perfuratriz a estética de Sergei Eisenstein de “O encouraçado Potemkin”.

Natural de Poções, onde nasce no já distante 1938, na década de 60 já se encontra em Salvador a participar da agitação cultural do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes). Os “cepecistas” têm grande influência no agito cultural dos anos 60, período de grande consciência política por parte dos estudantes - e não apenas os universitários, mas com presença na cena nacional também dos secundaristas. Nesta época, realiza curtas experimentais com Orlando Senna e Waldemar Lima (diretor de fotografia de "Deus e o diabo na terra do sol", de Glauber Rocha). Sua carreira de documentarista, no entanto, decola a partir de seu encontro, em São Paulo, com Thomas Farkas, quando dá início ao registro, no princípio, na bitola de 16mm, de aspectos surpreendentes da realidade brasileira. A constante temática do cinema de Geraldo Sarno é o registro da cultura popular e a investigação social da vida de um povo. É um cinema que procura dar voz aos oprimidos e que evita ao máximo a narração autoritária.  Com mais de 30 filmes, os seus registros documentais resgatam a memória do brasileiro marginalizado visto em diversos modos de suas manifestações populares.

"Viramundo" vence o Festival de Evian (França) e conquista os prêmios para melhor documentário nos festivais de Viña del Mar. E é votado por especialistas como um dos mais marcantes documentários brasileiros de todos os tempos em um levantamento realizado pelo festival "É Tudo Verdade" comandado por Amir Labaki.

Este filme tão premiado e aplaudido é  o primeiro de uma série de estudos sobre a cultura do Sertão, entre os quais, “Viva Cariri!” (1969), “Vitalino Lampião” (1969), “Padre Cícero” (1970), “Jornal do Sertão” (1970), “A cantoria” (1971), “Casa grande e senzala” (1974), “Eu carrego um sertão dentro de mim” (1980) e “A terra queima” (1984). Antes, porém dessa série realiza filmes em 16mm sobre a reforma agrária, entre eles “Mutirão em Novo Sol” (1963), que se perdem após o golpe militar de 1964. Trabalha também o tema da religiosidade popular em “Iaô” (1976), sobre os cultos afro-brasileiros, e “Deus é um fogo” (1987), sobre o catolicismo e as esquerdas latino-americanas. Como se não bastasse o vigor documentarista, incursiona  pelo longametragismo ficcional “O pica-pau amarelo” (1973) e “Coronel Delmiro Gouveia” (1977), este último rodado na Bahia e que tem entre no papel principal Rubens de Falco, cujo desaparecimento se dá há poucas semanas.
 
Desde 1996 está à frente da revista “Cinemais”, e a partir de 1999, em complemento ao trabalho de reflexão estética iniciado com a revista, realiza uma série de documentários intitulada “A linguagem do cinema”, composta de entrevistas com diretores brasileiros, entre eles Walter Salles, Júlio Bressane, Carlos Reichenbach , Ana Carolina e Ruy Guerra. Seu próximo projeto é o longa-metragem de ficção “Gavião, o cangaceiro que perdeu a cabeça”, que promete ser um passeio pelo universo onírico do homem do sertão.

Geraldo Sarno é um dos mais importantes integrantes da chamada Caravana Farkas. Em 1968, parte para o Nordeste um grupo de jovens cineastas, organizado em torno do empresário, fotógrafo produtor e Thomaz Farkas, com o intuito de realizar um projeto pioneiro na área da documentação de manifestações da cultura popular brasileira, com liberdade tanto para o uso das técnicas de reportagem tradicionais quanto para as da ficção, a contemplar, com isso, da precisão etnográfica ao improviso.

Dezenove os documentários produzidos. Cada um traz a abordagem de um tema único: a literatura oral em “A Cantoria” e “Jornal do Sertão”; a religiosidade popular em “Padre Cícero” e em “Frei Damião”; o artesanato em “A Mão do Homem”, “Os Imaginários” e “Vitalino Lampião”; a economia em “Casa de Farinha” (mandioca), “Erva Bruxa” (tabaco), “O Engenho” (rapadura), “A Morte do Boi” (gado) e “Região: Cariri” (estrutura agrária); o sertanejo em “A Peste”, “A Vaquejada”, “O Homem de Couro” e “O Rastejador”; e o cotidiano na fazenda em “Jaramataia”. As exceções ficam por conta de ”Visão de Juazeiro” e “Viva Cariri!”, que apresentam uma síntese de toda a temática do projeto, relacionando economia, cultura e religiosidade popular.

 


Sala Walter da Silveira
Homenagem a Geraldo Sarno - 14.05. 20h.

Viramundo, de Geraldo Sarno.
Documentário. 40 min. 1965.

"Um documento sobre os nordestinos que atraídos pela riqueza do sul, chegam a São Paulo para procurar emprego melhor que o da roça. Mostra o fim da ilusão, a vontade de voltar e o remédio da grande cidade ao desemprego e à miséria: a caridade e a fuga pelo misticismo".

Retratos Brasileiros – Geraldo Sarno, direção de Eryk Rocha.
Documentário. 29 min. 2007.

Apoiado em imagens de arquivo e em trecho de filmes antigos, o documentário traça um panorama da vida e da obra de Geraldo Sarno, considerado um dos nomes mais importantes na trajetória e afirmação do cinema documental brasileiro. Geraldo Sarno define sua forte relação e grande paixão pelo ambiente cinematográfico: Eu carrego um cinema dentro de mim.” Produção: Urca Filmes.

 

 


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